Filosofia da Tecnologia: Reavaliação de valores por uma sociedade sustentável

Escrito por Pedro Lucas
Publicada em 27/07/2022 · 10 visualizações

Filosofia da Tecnologia: Reavaliação de valores por uma sociedade sustentável

O complexo fenômeno da tecnologia moderna trouxe consigo uma gama de benefícios, como o aumento da expectativa de vida, métodos de sanitização e purificação d’água que proporcionam saúde, além de reduzir o acaso e o esforço humano, trazendo segurança e conforto. Contudo, o desenvolvimento de uma ética da tecnologia na sociedade contemporânea manifesta mazelas como o desenvolvimento tecnológico enviesado e o crescente comprometimento da saúde psicológica na sociedade. Pode-se afirmar que essa conjuntura constrói base na perspectiva otimista portada pelos indivíduos perante a tecnologia, o que finda a configurar uma sociedade consumista, alheia aos seus problemas e fundada na premissa de que conhecimento técnico científico significa controle e poder sobre a realidade, corroborando a alienação dos indivíduos e corrompendo instituições sociais.

Ao filosofar sobre o histórico do desenvolvimento tecnológico e seus impactos na sociedade vigente, investiga-se o objeto observado: a tecnologia e como podemos interpretá-la. Visto que vivemos em uma sociedade tecnológica onde poucos de fato detém conhecimento sobre o aparato que permite sua manutenção, é importante que haja entendimento sobre as faces da tecnologia e suas esferas de ação (multifacetação da tecnologia e da realidade). Dado esse panorama, desenvolve-se um estudo embasado em quatro ramos contemplados pela filosofia: ontologia, epistemologia, metodologia e virtude.

Ontologia: Tecnologia enquanto produto ou artefato

A metafísica é uma importante área da filosofia que investiga, dada sua etimologia, assuntos que se organizam racionalmente para além da vontade humana e da existência material do mundo. Dentro desse ramo, surge a ontologia, que foca na investigação da realidade factual e no “ser enquanto ser”, bem como as causas que o originam,lhe dão propósito ou o potencializam.

Dessa forma, ao observamos o artefato tecnológico, notamos que ele de fato corresponde às quatro causas maiores aristotélicas e assim conseguimos atribuir funções que o desmistificam, ou seja: o artefato é criado por alguém e possui uma forma que o distingue de outros objetos (função fundante); ele detém um propósito ou finalidade (função operacional), que aliados ao contexto inserido,lhe garantem identidade (função qualificadora).

Nesse sentido, o estudo ontológico da tecnologia nos permite compreender a identidade de seus artefatos e como eles devem contemplar a realidade de exigências e condições que devem ser levadas em consideração pelo engenheiro durante a etapa de concepção de um projeto. Ou seja, um engenheiro deve enfrentar e levar em consideração não só as questões técnicas e físicas do artefato tecnológico, mas também sua ergonomia, impactos econômicos, impactos ambientais e viabilidade da reciclagem, as questões morais por trás, processos jurídicos que o acompanham, questões de patente, dentre outros. Além disso, deve-se levar em consideração os grupos afetados ou relacionados, consultando suas -às vezes controversas- requisições a fim de respeitar a dinâmica de interesses que influenciam na execução e perduramento do desenvolvimento de projetos. Por fim, o próprio estudo de novas tecnologias, inovação e a constante mudança e adaptação das mesmas exige do engenheiro um empenho intelectual e de pesquisa a fim de corresponder aos propósitos de um projeto; seu conhecimento deve ser específico e ao mesmo tempo amplo, devido à diversidade de temas e disciplinas envolvidas.

Epistemologia: Conhecimento Tecnológico

A priori, é importante quebrar o paradigma de que a tecnologia seria apenas a aplicação técnica do conhecimento científico, visto que o desenvolvimento tecnológico gera novos conhecimentos e pode até mesmo criar novas pautas para a pesquisa científica. Ou seja, não há uma hierarquia em que a tecnologia esteja submetida pela ciência, na realidade, a tecnologia já era investigada antes mesmo da formalização do método científico. Superada essa barreira, podemos então observar que a tecnologia é aplicada à resolução de problemas, destinada à execução de tarefas e ao descobrimento de novos processos; por outro lado, a ciência possui um caráter epistemológico mais forte, buscando o descobrir ao invés do projetar e criar.

Além disso, a ciência não se responsabiliza diretamente pela aplicação de suas descobertas e, portanto, não lhe concerne a responsabilidade de corresponder às exigências da realidade (fatores sociais, políticos, naturais, etc). No entanto, a tecnologia deve responder à necessidade e desejo, tendo um caráter participativo no seu desenvolvimento pelo lado de produtores e usuários. Dessa forma, o conhecimento tecnológico -no que se diz respeito à observação da realidade multifacetada- deve estar entrelaçado aos aspectos de causa e efeito -relativos aos aspectos do artefato enquanto sujeito e às ciências da natureza- e àqueles que remetem à intenção por trás das coisas, referente aos aspectos do artefato enquanto objeto e às ciências sociais, políticas, econômicas e etc.

Metodologia: Histórico do Modus Operandi do Desenvolvimento Tecnológico

De início, os sistemas Fordistas e Toyotistas adotaram a divisão de trabalhos focando em densidade de produção, ou seja, as condições de trabalho foram moderadamente melhoradas e os funcionários agora eram divididos em etapas de montagem de forma que o processo de produção fosse otimizado mesmo com cargas horárias menores e menos funcionários. No entanto, essa realidade apenas mascarava más condições de trabalho dos funcionários, que eram condicionados ao trabalho monótono, estressante, que os objetificam e tornava nula sua participação construtiva nas decisões da empresa.

Nesse sentido, era -e ainda é- necessário revisar as condições trabalhistas, havendo foco na totalidade do processo de produção, na configuração dos locais de trabalho, na administração de empregados e na comunicação. Dessa forma, a reconfiguração das condições de trabalho se daria pela mitigação da distância entre trabalho manual e mental, ou seja, os empregados participarem ativamente nas decisões da fábrica a partir de feedbacks e desenvolvimento de métodos que aumentassem a produção de maneira saudável, configurando uma abordagem democrática dentro das fábricas.

Virtude: Reavaliação dos valores morais que guiam uma sociedade tecnológica e o papel da Ética da Responsabilidade

Dentro do contexto da globalização, o contato entre culturas diferentes de forma civilizada possibilitou a explicitação da complexidade humana por meio de sua diversidade, nela há uma diversidade de necessidades e valores que antecedem o desenvolvimento de novas tecnologias e variam nas diferentes sociedades. As instituições e cultura - que regem os valores e padrões de comportamento de uma sociedade - guiam a concepção de novos artefatos tecnológicos, de forma que as pessoas se integram naturalmente a esses artefatos e ao seu contexto de funcionamento. Por conseguinte, a influência da cultura e instituições sociais sob o desenvolvimento tecnológico deixam claro o importante papel dos valores morais que edificam uma sociedade.

A virtude humana foi revisitada de forma recorrente por vários estudiosos no decorrer do tempo. Esse traço na história da filosofia é compreensível, visto que a virtude busca definir valores morais que produzam o bom comportamento do ser social. Dado o panorama da organicidade social vigente sob a perspectiva da tecnologia enquanto reflexo da condição e vontade humana , onde a complexidade das interações entre diferentes esferas do corpo social e a dependência entre elas se intensificam cada vez mais, é levantada novamente a necessidade de reavaliar os valores morais intrínsecos à realidade de instituições como Família, Estado, Igreja, Trabalho e assim sucessivamente.

Centrada na responsabilidade humana pela manutenção da natureza, pela garantia do bem-estar e da existência de futuras gerações, a ética da responsabilidade -desenvolvida pelo filósofo alemão Hans Jonas em concernimento dos adventos negativos do desenvolvimento tecnológico- nutre a ideia de responsabilidade social, tornando possível a renovação de prioridades da sociedade: no campo da ciência, a genuína busca por sabedoria torna-se o objetivo; na tecnologia, a edificação e preservação; a economia focada no gerenciamento de recursos; e na política, o desenvolvimento de leis e justiças públicas. Dessa forma, a renovação de valores levando em conta a responsabilidade e empatia proporcionam uma sociedade equilibrada, sustentável, pacífica e também de desenvolvimento diversificado.

Conclusão:

Percebe-se então que a sociedade pós moderna se encontra frustrada em vários aspectos, e é marcada pelo impacto que a tecnologia trouxe sobre as relações humanas, políticas e econômicas. Vive-se uma realidade “líquida”, onde o filósofo Zygmunt Bauman explicita que essa fluidez vem acompanhada com a ideia de mudança e busca por um estado social aprimorado e, então, solidificado. Dessa forma, entende-se que a sociedade tecnológica precisa ter seus aspectos reformulados, e esse é o ponto da filosofia da tecnologia aliada à ética da responsabilidade: reestruturar os valores morais da sociedade a fim de potencializar esse estado sólido perfeito idealizado por Bauman e aspirado pelos demais filósofos do ramo.

REFERÊNCIAS:

SCHUURMAN, Egbert: Responsible Ethics for Global Technology.

MITCHAM, C. Thinking through technology. The path between engineering and philosophy. Chicago/Londres, The University of Chicago Press, 1994.

Cupani, Alberto. Filosofia da tecnologia : um convite. 3. ed. – Florianópolis : Editora da UFSC, 2016.

VERKERK, M. J et al. Filosofia da tecnologia: uma introdução. 1. ed. - Editora Ultimato LTDA, 2018.

Fonseca, F. O. (2020). Hans Jonas: ética para a civilização tecnológica. Cadernos De Ciências Sociais Aplicadas, 4(6). Recuperado de https://periodicos2.uesb.br/index.php/ccsa/article/view/1916

BAUMAN, ZYgmunt. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Editora Zahar, 2001.

Universidade Federal do Piauí
Departamento de Engenharia Elétrica
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